Vida, pensamento e luta: exemplo que se projecta na actualidade e no futuro

Congresso

Álvaro Cunhal, o projecto comunista,
Portugal e o mundo hoje.

26 e 27 de Outubro

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Centenário do nascimento de Álvaro CunhalCentenário do nascimento de Álvaro CunhalCentenário do nascimento de Álvaro CunhalCentenário do nascimento de Álvaro CunhalCentenário do nascimento de Álvaro Cunhal

Congresso «Álvaro Cunhal, o projecto comunista, Portugal e o mundo de hoje»

Intervenção de Manuel Augusto Araújo,

Actualidade e urgência de «A Arte, o Artista e a Sociedade»

Álvaro Cunhal sempre afirmou que a luta pela cultura era inseparável das lutas políticas, económicas e sociais, das lutas pela transformação da vida. Em 1977, na primeira Assembleia de Artes e Letras da Organização Regional de Lisboa do PCP, que tinha por divisa "Com a Arte para Transformar a Vida", Álvaro Cunhal no discurso de encerramento, sublinhou " a defesa da cultura e por uma política cultural ao serviço do povo e do país é inseparável da luta pela consolidação das liberdades e das outras conquistas da Revolução, da Reforma Agrária, das Nacionalizações, do Controlo de Gestão." (…) "A luta em defesa da cultura e por uma política cultural ao serviço do povo e do país é também inseparável da luta em defesa da verdadeira independência nacional", finalizou com uma inequívoca defesa da liberdade de criação artística: " Um Partido como o nosso, capaz de todos os sacrifícios para libertar o homem, luta necessariamente para libertar o artista. Quando a própria revolução é a realização de sonhos milenários, como poderia o nosso Partido, força revolucionária que é, cortar as asas ao sonho?"

Nessa sua intervenção, a mais importante reflexão que fez sobre cultura no pós-25 de Abril, a relação entre a sociedade e as artes foi várias vezes referida, afirmando que quem restringe o acesso aos que bens materiais restringe também a recepção dos bens espirituais pelo que denunciava " a política do Governo PS/CDS, (o segundo governo constitucional) como já anteriormente a do governo PS sozinho de facto aliado à direita, a política antioperária e antipopular nos planos económico, social e político é forçosa e logicamente uma política anticultural." e assinala "o imperialismo actua para o esmagamento e a adulteração do património cultural das nações e impõe «mercadorias culturais e artísticas de baixa qualidade formal, de um reles cosmopolitismo e veiculando a ideologia do fascismo e da reacção". O que mostrava estar atento aos traços nucleares da situação pós-moderna desde os anos setenta, em plena expansão.

É nesse contexto que Álvaro Cunhal, distanciado das polémicas que nos anos 40 tinha mantido com presencistas e na área do neo-realismo com alguns neo-realistas, publica "A Arte, o artista e a sociedade". Avisa no prefácio que o ensaio então editado (1996) tinha começado a ser escrito "inserido num projecto de aprofundamento ulterior do estudo que acompanhasse a evolução das ideias e das obras ode arte no quadro de realidades sociais no mundo em mudança." (…)" o absorvente empenhamento noutra direcção de actividade impediu a realização desse projecto. Por razões óbvias, o que não foi possível já não o será. Entretanto se o projecto ficou adormecido, nunca ficou a reflexão. Daí a decisão em anos recentes de retomar o estudo e a redacção do ensaio, sem adiantar o âmbito histórico das obras de arte consideradas, mas adiantando novas e com frequência correctoras reflexões sobre reflexões anteriores".

Antecipa a crítica à situação pós-moderna, sem directamente a referir, sobretudo nas teses nucleares do seu ensaio, em particular no capítulo " O ser humano, o indivíduo e a classe", onde disserta com grande saber e acuidade sobre a inovação formal, o típico, a tipicidade, o estereótipo, no aprofundamento e continuidade de outras teses onde a relação biunívoca entre o artista e a sociedade e entre o artista e as experimentações formais, contrariam frontalmente a superficialidade pós-moderna que, tanto na teoria como numa nova cultura da imagem e do simulacro que a definem, enfraquece o pensamento e debilita a historicidade.

A realidade é que o destino histórico dos formalismos, encerrados em si próprios, acaba sempre na utilização publicitária do trabalho sobre a forma. A produção estética, nos nossos dias, integrou-se na produção geral de bens de consumo com a frenética urgência económica de produzir novas aparências cada vez mais falsamente inovadoras (desde a roupa e os telemóveis aos automóveis e aviões) a ritmos de renovação cada vez mais rápidos e superficiais, que assumem posição central no vasto contexto visual dos salões mundanos, nas extravagâncias formais, com eco nos media. Em sentido literal, a característica mais vincada do pós-modernismo é a ausência de profundidade, uma insustentável leveza que esvazia, como um voraz cancro, o mundo, a inteligência humana.

Hoje, as artes submetem-se às exigências económicas, que têm reconhecimento e apoio institucional de todo o tipo. Adquiriram estatuto e classificação nas actividades económicas, área difusa onde tudo se mistura com fronteiras por definir, um albergue espanhol do que se denomina por indústrias culturais e criativas que ganha peso e apoio público e privado com dotações do Estado, de fundações e outras formas de mecenato. Artes, em que em todo o mundo, antes de declarada a crise, se investiram recursos enormes na construção de museus, teatros, teatros de ópera, centros culturais, salas de concertos, na subvenção de espectáculos, sem que nada disso teve influência na criação de uma arte típica. Vive-se numa civilização caótica nos aspectos visuais, sem uma poesia ou um romance característicos, com a pintura e a escultura a mergulharem na incoerência mais insensata, numa arquitectura que derrapa em formalismos muitas vezes sem sentido.

Artes que se constroem no vazio, sem objectivos determinados. Arte sem qualidades que, de pathos perdido, surge de impulsos interiores sem carácter próprio, perdendo referências a tudo o que confere ao ser humano e ao ser humano – artista uma natureza, uma identidade, um lugar e um estatuto definido na sociedade. Artes que são o retrato dos homens que vivem fragmentados num mundo alienado.

Um bom exemplo dessa realidade são as representações da figura humana por Warhol, artista icónico do pós-modernismo, onde os retratados surgem desumanizados, transformados numa mercadoria, o que é ainda mais nítido quando os retratados são Marilyn Monroe, Elizabeth Taylor ou Michael Jackson, eles próprios mercadorias do sistema de estrelato. A alternativa são os pastiches hiperrealistas onde a prática neutral da imitação transforma o pensamento numa prática frívola. Nesse estado de coisas a melhor “arte é um bom negócio” e o que interessa “é ser famoso nem que seja por quinze minutos”, como disse Andy Warhol. Hoje, pode-se sem margem para equívocos, parafrasear o comerciante do arroz de Brecht: não sei o que é arte, nunca vi, li ou ouvi nenhum objecto de arte, da arte só conheço o preço.
A este estado da arte, opõe Álvaro Cunhal, no capítulo do ensaio referido que "o tratamento da figura humana na arte através dos tempos é particularmente significativo de realidades sociais e de sentimentos e aspirações que destas fazem parte. O tratamento desumanizador indica em geral falta de confiança no futuro. A valorização do ser humano através da sua figuração é sinal de confiança na sua capacidade de se afirmar, de trabalhar, de lutar".
É evidente que Álvaro Cunhal, profundo pensador marxista, quando se refere ao tratamento da figura humana nas artes tem subjacente a teoria de Marx sobre a formação dos sentidos que estabelece que estão para lá do seu limites físicos "sentidos capazes de prazeres humanos se transformam em sentidos que se manifestam como forças do ser humano. Porque não se trata apenas dos cinco sentidos, mas também dos sentidos ditos espirituais, mas também dos sentidos práticos (da vontade, amor, etc.), numa palavra, do sentido humano, do carácter humano dos sentidos que se formam através da existência de um objecto, através da natureza tornada humana. A formação dos sentidos representa o trabalho de toda a história do mundo até hoje." (…) Não foi, pois, apenas através do pensamento mas através de todos os sentidos que o homem se afirmou no mundo objectivo."

Mundo objectivo em que os sentidos se constroem, afinam, para, perdendo o seu carácter primário, se tornarem num instrumento de leitura sofisticado para ler, interpretar e estar num mundo extremamente contraditório, diverso em cada momento, em que a luta, um risco permanente, deve ser assumida sempre e em todas as horas para tornar possível uma sociedade em que se recupere a dignidade humana e o homem não seja um ser alienado pela exploração. Nesse mundo objectivo a arte deve "ser interventiva na sua inesgotável diversidade." Essa a outra tese nuclear deste ensaio de Álvaro Cunhal.

Vai atrás na história e na história das artes para demonstrar que muitas vezes uma mensagem nova pode expressar-se com recursos formais do passado que transforma para os tornar novos. Cita os casos da estatuária grega clássica: "na Grécia democrática inicia-se uma revolução formal libertando a representação da figura humana de um estatismo arcaico, surge um ser humano capaz de viver e agir. O que é expressão da tomada de consciência da opressão exercida pelo Estado autoritário."(…)"Mostra uma mensagem nova, embora começando por tentar expressar-se com recursos formais ultrapassados, acaba por descobrir e afirmar novos e mais ricos meios estéticos. O mesmo fenómeno se observa na pintura burguesa nos séculos XV e XVI. Também nessa época de profundas transformações e mudanças sociais, os sentimentos e aspirações das classes empenhadas nessas transformações e mudanças transpareceram num processo lento mas cada vez mais nítido dos embora inadequados processos formais da arte antiga (…) Também nessa época de profundas transformações e mudanças sociais, os sentimentos e aspirações das classes empenhadas nessas transformações e mudanças transpareceram num processo lento mas cada vez mais nítido dos embora inadequados processos formais da arte antiga." (…) "aparece finalmente o homem do mundo em mudança, o homem que vive, que pensa e se afirma, o homem que intervém voltado para o futuro".

Defendendo uma arte de intervenção, inquieta-se com o vazio formal de muitas obras que se querem de intervenção. Alerta que "a mensagem artística do movimento operário não pode encontrar no naturalismo o caminho adequado. A par de algumas obras mais conseguidas, muitos pintores do chamado realismo socialista não alcançaram um nível estético, incluindo tanto o valor estético da forma como o valor estético da expressão da mensagem, que correspondesse à veemência da intervenção pretendida." afirmando a traço grosso "pouco conseguida é a obra que só com explicação acaba por ser reconhecida como tal". para concluir "mais importante do que aquilo que o artista quis fazer é aquilo que realmente fez". Uma crítica que se aplica também por inteiro aos defensores da arte pura, limpa de qualquer referência que não seja a forma.

"A arte de intervenção com uma mensagem nova, nomeadamente com um sentido social e político explicitado requer soluções formais também novas que correspondam à mensagem. Cabe aos artistas que sentirem dentro de si a necessidade, a vontade e a determinação para levarem à sociedade tal mensagem encontrar e concretizar as soluções formais capazes de atingirem com êxito tal objectivo."

A arte vai sempre mais além da sua leitura imediata. Mesmo a não deliberadamente de intervenção pode traduzir, ler e explicitar a sociedade em que é gerada, mesmo quando produzida por artistas politicamente reaccionários. Álvaro Cunhal sublinha essas contradições referindo detalhadamente o caso de Balzac um apoiante destacado da aristocracia e da nobreza, um contra-revolucionário convicto. Escritor de imenso talento, um dos expoentes máximos do romance, quando o romance ainda era uma forma literária nova, "os seus romances deram, por respeito pela verdade, um quadro vivo circunstanciado e crítico da sociedade francesa da época. Típicas figuras da aristocracia cuja decomposição e decadência deplora mas retrata." (…) " Típicas também, embora com menos evidência, as figuras de republicanos, ligados ao povo, personagens antilegitimistas, adversários políticos de Balzac e que entretanto nos romances são apontados como integrando a força social do futuro."

Nessas contradições entre o posicionamento político e o significado da obra, reside no dizer de Marx, como Cunhal assinala, o triunfo do realismo.

Álvaro Cunhal estende uma fina e sofisticada rede de análise crítica aos romances de outro escritor realista, Stendhal, para elaborar uma tese inovadora, contrapondo-a a Luckás destacado filósofo marxista com vasta obra no campo da estética, o que, além de evidenciar a sua enorme cultura e erudição, demonstra a profundidade do seu pensamento estético, a sua capacidade de análise crítica.

Diz Cunhal " nos romances de Stendhal os heróis traduzem, nos seus traços individuais, na sua vida e sorte pessoal, características essenciais a uma época. O absolutismo dos estados italianos em A Cartuxa de Parma; a transformação da França da Revolução e de Napoleão na sociedade corrupta da Restauração borbónica em O Vermelho e o Negro. Consideramos entretanto que tanto Sorel como Fabrício não podem ser considerados como encarnando, na época dos jacobinos de Blanqui, um ardor puro, as aspirações mais profundas dos melhores filhos da classe burguesa pós-revolucionária, de forma que salvam a sua integridade e moral da nódoa do seu tempo." Essa a tese de Luckas que Álvaro Cunhal contesta afirmando "que tais heróis retratam a sua época precisamente porque se enodoam e corrompem, porque lhes falta pureza, integridade e amor pela verdade, porque não conseguem sacudir o lodo e a nódoa, mesmo no fim da carreira. O exagero num Sorel ou num Fabrício não reside nas tendências heróicas opostas à sordidez da vida da época antes consiste na transformação da sordidez em motivo de heroísmo. Nisso reside a tipicidade desses heróis de Stendhal." Essa análise de Álvaro Cunhal condu-lo a outra tese central do seu ensaio já aqui referida sobre o típico e a tipicidade "Nas artes, as figuras típicas não são retratos incaracterísticos de indivíduos médios, mas figuras que, por suas atitudes e expressões, traduzem situações e problemas de uma classe, de uma época. Isso sucede mesmo que nada se saiba do que pretende o autor. Analisa os painéis de Nuno Gonçalves para assinalar "as figuras expressam a fusão do indivíduo no colectivo social, transparecem a firmeza de decisão, de combatividade e de confiança da burguesia ascendente, caldeada n revolução vitoriosa dos fins do século XVI, e lançada vigorosamente no caminho dos descobrimentos marítimos." Cunhal está referir-se à Revolução de 1383 tão bem descrita nas Crónicas de Fernão Lopes em que o povo a arraia-miúda se alia aos burgueses numa luta, à época, audaciosa e progressista.

O que ele afirma, o que constata é que mesmo em obras da literatura, música, das artes plásticas do cinema e do teatro, em que, por vontade declarada dos artistas, o fundamental é o valor formal, quando não se reduzem exclusivamente a ser experiências formais "a realidade histórica que atiram porta fora aparece e vai entrar pela janela" (Engels).

Quando olhamos a figura humana alterada, dividida, fraccionada, que começou a ser praticada pelos cubistas e pelos expressionistas, que de várias formas surge ou influencia a pintura de artistas tão diferentes como Braque, Bacon, Léger, Lucien Freud ou Paula Rego, quando olhamos para as mulheres desesperadas despedaçadas, deformadas de Picasso que antecipam Guernica, percebemos todo o seu significado ao ser revelado ao mundo a barbárie dos campos de concentração nazis. A arte, muitas vezes, se o artista está empenhado na sua ligação com a sociedade, antecipa a história. Se em Guernica Picasso tem uma intenção objectiva, bem expressa, as suas cabeças de mulheres pintadas anteriormente poderiam ser unicamente retratos. Eram, mas adiantavam-se à história escrevendo história. Com essas obras presentes, Cunhal cita Apolinaire que, com inteligente previsão, escreveu "no futuro os críticos de arte vão encontrar nessas obras, as que se têm estado a referir, não apenas o seu valor estético mas um testemunho de como o capitalismo destrói, mutila, desintegra a personalidade do trabalhador do nosso tempo."

Preocupa-se Álvaro Cunhal com a recepção e a compreensão das obras de arte em que competem a inteligência, o saber e os sentidos. Recusa veementemente " as concepções da «pureza» da arte e de uma pretensa «ciência» artística do valor estético e da criação artística integram".

Nega a arte como um fim em si mesmo, dando inúmeros exemplos de todos os géneros artísticos, em que o assunto ou as referências ao que não seja exclusivamente a forma foram rasuradas em nome de uma «arte pura». Defende que o juízo de "valor estético e a apreciação da obra de arte, a própria reacção individual imediata ante a obra de arte, deveria depender directamente do conhecimento, do saber, da reflexão, da inteligência e não da emoção espontânea dos sentidos." Subjacente a esta tese estão os sentidos humanos, a sua formação histórica e social como foi referido.

Naturalmente Álvaro Cunhal nega a obra de arte em que o artista se apaga para deixar funcionar cegamente o seu subconsciente e inconsciente. "Pretendendo em palavras atribuir-se à personalidade individual um papel inteiramente independente na criação, tais concepções e métodos acabam por negar ao artista decisão, vontade e propósito e atribuem-lhe o papel passivo e involuntário de uma válvula aberta onde se libertam os seus «traumas» e «inibições», vindos do «inconsciente» ou «subconsciente». Ou ainda noutra concepção, o artista, seria na criação artística, um instrumento cego do Destino, do Sobrenatural, do Divino." O que Álvaro Cunhal nega com veemência é o dogmatismo formalista, as suas pretensões absolutizantes, não negando o seu valor estético e formal de base "ao mesmo tempo que se critica o formalismo se verifica e se sublinha o valor estético da forma e da arte formalista."

O que recusa é aceitar a negação da obra de arte como um meio de comunicação humana e o desprezo pela reacção que a obra provoque para além de uma reacção espontânea e primária.

A sua inquietação pelo afastamento da arte da sociedade, do corte artificial entre a arte e a sociedade tem as suas raízes bem fundas na actividade política, onde o seu empenhamento era prioridade, mas que lhe faziam ver os caminhos por onde a arte enveredava. Já o tinha referido muito antes, em 1977 como foi citado alertando para os perigos advindos das imposições das indústrias culturais e criativas onde, no quadro mais geral da globalização económica. Tem efeitos devastadores na produção das obras, apertando os critérios estéticos com o garrote dos critérios de mercado, em que a chamada alta cultura e a cultura popular são trucidados pela cultura comercial.
No pensamento pós-modernista, tudo é simulacro e simulação o que torna o individual e o social realidades fragmentadas, inverosímeis. Dentro de si o vírus de uma cultura em que a imagem se assume enquanto nova realidade da simulação, e as questões da imagem, exercem domínio quase absoluto. Contra este estado da arte Álvaro Cunhal, analisa-o numa crítica particularmente lúcida, quando denuncia o dogmatismo formalista e o esclerosamento dos realismos socialistas, com forte sublinhado no afastamento das artes da sociedade.

Na base do estado actual está o fenómeno da globalização decorrente do desenvolvimento capitalista. Uma época nova que se começa a definir mais nitidamente a partir do final dos anos 60 com o fim da equivalência do dólar - ouro, a primeira grande crise do petróleo. Quando se começa a reconhecer que é difícil ou mesmo impossível garantir o desenvolvimento capitalista com os instrumentos de regulação soberanos internos, dentro dos espaços – nação e instrumentos de regulação económica como o Banco Mundial ou o FMI, que eram projecções da potência norte-americana, adquirem um carácter supranacional de controle do desenvolvimento mundial. É a situação histórica da passagem do modernismo para o pós-modernismo, a emergência do capitalismo tardio, com um novo modelo de acumulação económica, social e política. Numa extensão sem precedentes, cada vez mais habitantes do planeta perdem a esperança e são atirados para a exclusão social e económica, a riqueza global concentra-se num número cada vez menor de mãos. Em nome da racionalização e da modernização da produção, regressa-se ao barbarismo dos primórdios da revolução industrial. Uma nova ordem económica emerge impondo-se com violência crescente. O objectivo é a conquista do mundo pelo mercado. Nessa guerra os arsenais são financeiros e o objectivo é governar o mundo a partir de centros de poder abstractos. Nessa guerra assume particular importância a comunicação que prepara e justifica as acções políticas e militares imperialistas através dos meios tradicionais, rádio, televisão, jornais, em que, sobretudo na televisão o primado do visível conduz a uma forma de censura quando ao assunto não se associam imagens espectaculares, e dos novos, proporcionados pelas redes informáticas e a construção de um imaginário global com os meios da cultura mediática de massas, as revistas de glamour, a música internacional nos sentimentos e americana na forma, os programas radiofónicos e televisivos prontos a usar e a esquecer, onde cada vez a conversa aprofundada é substituído pela diversão e as tagarelices insignificantes dos talk shows entre interlocutores e comentadores intercambiáveis, o teatro espectacular e ligeiro, o cinema sem espessura medido pelo número de espectadores, a arte em que a forma pode ser substituída por uma ideia e a personalidade do artista pela sua assinatura. Tudo o que constrói um novo tipo mais radical e literal de superficialidade com os efeitos nefastos da generalizada oferta de entretenimento que não exige reflexão, nem sintoniza sentimentos e se afunda num perverso gosto homogeneizado e acéfalo que atira para a fornalha da iliteracia global um crescente número de pessoas que, por via da exclusão cultural, ficam cada vez mais incapacitadas e afastadas da possibilidade de possuírem ferramentas para exercerem os seus direitos de cidadania. É nesse contexto que "A arte, o artista e a sociedade" adquire relevância, defendendo uma arte ligada à sociedade e que seja, directa ou indirectamente, com secâncias ou tangências, em unidade e conflito "uma arte de intervenção na sua inesgotável diversidade"

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