Vida, pensamento e luta: exemplo que se projecta na actualidade e no futuro

Congresso

Álvaro Cunhal, o projecto comunista,
Portugal e o mundo hoje.

26 e 27 de Outubro

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Centenário do nascimento de Álvaro CunhalCentenário do nascimento de Álvaro CunhalCentenário do nascimento de Álvaro CunhalCentenário do nascimento de Álvaro CunhalCentenário do nascimento de Álvaro Cunhal

Congresso «Álvaro Cunhal, o projecto comunista, Portugal e o mundo de hoje»

Intervenção de Aurélio Santos,

Álvaro Cunhal - Uma causa, uma opção, uma vida

Não é tarefa fácil falar sobre Álvaro Cunhal, desde logo pela diversidade de possíveis ângulos de abordagem do que foi a sua vida. Menos fácil ainda, pela profundidade e densidade da obra e do pensamento que nos deixou. Álvaro era um homem de causas e de cultura e por muito que dele se fale algo ficará sempre por dizer. Mas a abordagem torna-se ainda mais difícil, quando falamos de um companheiro que, durante décadas, lutou com uma força, determinação e coragem pouco comuns por uma causa que é também a causa de muitos dos que aqui hoje estamos.

Escolhi debruçar-me fundamentalmente sobre a actividade política de Álvaro Cunhal, enquadrada na sua qualidade de dirigente partidário como Secretário-geral do Partido Comunista Português, já que é esse o aspecto da sua vida que me é mais familiar por ter tido o privilégio de ter sido um dos seus companheiros, na luta antifascista e na revolução de Abril. Gostaria ainda de fazer um breve comentário a um aspecto que tem sido menos aprofundado, e que sintetizaria como: Álvaro Cunha -l um Homem de Estado.

Partirei, na minha referência ao trabalho desenvolvido por Álvaro Cunhal como militante do PCP durante mais de 75 anos, de uma frase por ele deixada no seu último testamento: «a todos desejo que, vida fora, realizem os seus sonhos». Frase simples mas que traduz de forma clara e inequívoca a razão da sua abnegada e incessante luta: a criação de condições objectivas que permitissem aos trabalhadores e ao povo, libertos de grilhetas, o encontrar de caminhos para uma vida mais digna, mais realizada, mais feliz.

A adesão de Álvaro Cunhal ao comunismo foi muito mais que a adesão a um ideal, foi uma opção de vida e de generosidade.

Álvaro escolheu gastar a vida por inteiro ao serviço de uma causa, de um ideal, e é isso que faz alguns homens diferentes, lhes dá uma outra dimensão, os torna grandes. Por isso, mesmo aqueles que a ele sempre se opuseram e o combateram, falam dele com admiração e respeito.
Da sua coragem falam os factos.

Quem ousaria em pleno fascismo e à mercê do despotismo da polícia politica e dos carcereiros, apresentar uma tese de licenciatura sobre uma questão então considerada tabu – o aborto clandestino. Álvaro Cunhal desafiou o regime, não por aventureirismo gratuito, mas para dar voz a quem a não tinha – as mulheres da classe trabalhadora. Perante um júri conotado com o regime, cujos membros vieram todos a ter funções governativas, Álvaro Cunhal venceu o desafio e a qualidade da sua tese não pôde ser ignorada.

Uma das características mais marcantes da sua personalidade é a profunda coerência na sua visão do mundo. O Álvaro Cunhal que encontramos na prática política não diverge de Manuel Tiago autor de romances, nem do Álvaro dos desenhos da prisão, tão pouco do Cunhal que escreveu «A arte, o artista e a sociedade». Sempre o mesmo olhar atento à realidade, a preocupação sempre direccionada para aqueles que de seu têm apenas a voz e, tantas vezes amordaçada.

Álvaro Cunhal não tinha uma visão mecânica e determinista da História. Como marxista sabia que os homens são donos do seu próprio destino, são o sujeito da História, a força motriz do progresso social. Por isso não ficou à espera que o movimento da História trouxesse por si à humanidade uma nova sociedade. Escolheu dedicar a sua vida à grande causa das forças humanas capazes de transformar a sociedade e de construir uma sociedade mais justa – a sociedade comunista.

Álvaro conhecia a clássica frase marxista de que sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário, mas para ele o marxismo-leninismo não era uma doutrina abstracta, um esquema rígido a que se deveria formatar a multiplicidade da vida.

Como marxista tinha em conta que a evidência linear dos acontecimentos e dos factos oculta o relacionamento entre eles e a sua transformação no próprio decorrer dos processos. Sabia que a procura da verdade não exclui o erro e não mistificava a complexidade da realidade objectiva, antes partia dela para apreender o mecanismo dos processos materiais, socias, políticos e estruturais que possibilitam uma mais perfeita realização do ser humano, levando em conta as aquisições que a própria experiência histórica vai trazendo.

Por isso desenvolveu a sua intervenção política sempre enquadrada por uma constante reflexão que, baseando-se na aplicação criativa do marxismo-leninismo procurou com grande abertura de espírito resposta para os problemas concretos colocados à sociedade do seu tempo.
Com coerência defendia a cientificidade da teoria marxista-leninista, sem no entanto a colocar acima da confrontação com a realidade.

A situação que hoje se vive no nosso país é a maior prova da justeza do seu pensamento. Sabemos, por experiência própria, as desastrosas consequências da aplicação mecânica de modelos esgotados, fabricados ao arrepio da realidade e tendo como único fim servir os interesses inconfessos do grande capital.

Não é possível resumir numa pequena intervenção a valiosa contribuição de Álvaro Cunhal para a formação e desenvolvimento do PCP. Mas, alguns aspectos dessas contribuições exigem uma especial referência.

Toda a sua actividade partidária teve como principal preocupação fazer do PCP um partido revolucionário, capaz de intervir activamente em cada fase da vida política e nos mais variados aspectos respeitantes aos trabalhadores e às massas populares. Um Partido capaz não só de defender em cada situação os interesses dos trabalhadores e do povo português, mas também de apontar caminhos para uma nova forma de organização da sociedade portuguesa, «tendo o socialismo como horizonte», expressão que tantas vezes gostava de usar.

Assegurar a existência e actuação de um Partido revolucionário, num país subjugado por uma ditadura fascista, não se apresentava, como se calcula, tarefa fácil.

Nos anos 40 Álvaro Cunhal participou com toda a sua criatividade na definição das regras de defesa do Partido, nas condições de rigorosa clandestinidade, e que vieram nalguns momentos a revelar-se de primordial importância.

Durante a IIª Guerra Mundial, por uma errada interpretação da aliança antifascista surgiu, também em Portugal, a ideia da chamada «política de transição», apresentada como uma via para a saída do fascismo na base de uma conciliação entre elementos da sociedade capitalista e do socialismo. Álvaro Cunhal com a sua invulgar lucidez política refutou com toda a oportunidade esta suposta solução.

Igualmente rejeitou a perspectiva surgida no Partido nos finais da década de 50, de uma «via pacífica» para derrubar a ditadura salazarista, por considerar que tal solução não tinha em conta o caracter terrorista do regime instalado no nosso país. Esta questão que levou, nessa altura, a um grande e alargado debate dentro do Partido, em que Álvaro Cunhal participou logo após a sua fuga de Peniche, culminou com a aprovação da linha do levantamento nacional, confirmada pelo VIº Congresso.

De entre as suas variadas obras assume uma posição de destaque o «Rumo à vitória», escrito em 1964, e em que Álvaro Cunhal apresenta um alto exemplo de ligação entre teoria e prática. Não teoriza. Faz teoria. Elabora-a fundamentando racionalmente as condições, formas e objectivos de luta. Analisa a base económica e a arrumação das forças sociais, fundamenta a etapa revolucionária e as formas de luta para uma revolução democrática e nacional. Essa análise permitiu não só caracterizar a natureza de classe da ditadura salazarista mas também definir em bases marxistas seguras uma política de unidade.

O Programa para a Revolução Democrática e Nacional aprovado no VI Congresso mostrou corresponder a aspirações profundas do povo português, que dele se apropriou, tomando seus muitos dos objectivos nele apresentados para a revolução.

Regressado a Lisboa logo após o 25 de Abril, Álvaro Cunhal revela-nos mais uma vez a genialidade e perspicácia do seu pensamento, ao aperceber-se da fundamental importância da aliança do povo com o Movimento das Forças Armadas que acabara de derrubar a ditadura. Sem o apoio do povo este movimento sem um projecto coeso, dada a diversidade da sua composição, ter-se-ia quedado por uma sublevação militar sem a importância e dimensão que veio a adquirir. Por noutro lado, qualquer acção popular sem o apoio militar seria fácil e rapidamente esmagada. Só a unidade entre estes dois elementos poderia permitir ir mais longe e dar início a uma revolução democrática. Álvaro Cunhal de imediato o percebeu.

Um dos momentos cruciais na vida do PCP foi o da transição de partido na clandestinidade para o grande partido de massas em que se transformou logo após o 25 de Abril, capaz de enfrentar os desafios de uma revolução. Álvaro Cunhal sempre valorizou a decisão que considerava vital para um partido revolucionário de não diferenciar os militantes vindos da clandestinidade dos que aderiram após o 25 Abril. O papel que o PCP teve na Revolução de Abril não teria sido possível sem este audacioso processo de abertura, de renovação de processos de trabalho, sem a contribuição criativa e dinâmica de todos os militantes, nem sem a autonomia e iniciativa das suas organizações.

Na reflexão de Álvaro Cunhal sobre as questões da organização partidária, largamente desenvolvida no seu livro «O Partido com paredes de vidro» avulta a concepção da democracia interna compreendida como uma expressão orgânica do «grande colectivo partidário»
Apesar de, por características próprias, sempre se ter destacado, e se ter transformado numa imagem de identificação do Partido quer interna quer externamente, Álvaro Cunhal desenvolveu sempre a sua actividade como parte integrante do colectivo, respeitando e cumprindo rigorosamente as condições de democracia interna, nunca deixando que se instalassem em seu redor comportamentos que de alguma forma propiciassem o culto da personalidade. Esta atitude permitiu que a prática do trabalho colectivo fosse assumida em todo o Partido com um vincado traço afectivo e humano, com um respeito mútuo e fraternal confronto de opiniões, modos de ser, vivências e personalidades diversificadas.

No plano internacional o contributo de Álvaro Cunhal foi indispensável para a credibilidade e respeito que o PCP granjeou no seio do Movimento Comunista Internacional.

Recordo aqui um episódio revelador do prestígio que Álvaro Cunhal ganhou além fronteiras, referindo a curiosa afirmação feita a Eduardo Lourenço pelo reputado escritor inglês Graham Greene: «De Portugal, apenas gostaria de conhecer Álvaro Cunhal».

Por fim gostaria de abordar a questão a que chamei: Álvaro Cunhal um Estadista.

É frequente atribuir-se a designação de estadista ao exercício da função governativa. Trata-se, na minha perspectiva de uma inexactidão. Muitos e muitos são os governantes que passam pela vida pública sem que deles fique qualquer rasto, nem mesmo uma sombra.

Álvaro Cunhal desempenhou funções governativas, como Ministro, durante um curto espaço de tempo, mas revelou ao longo de toda a sua vida uma espantosa capacidade de liderança politica, uma largueza e abrangência de visão de cada momento político, uma invulgar capacidade em apontar caminhos mesmo nas encruzilhadas mais difíceis.

E seria injusto não destacar aqui a clareza com que definiu os objectivos imprescindíveis para a revolução democrática numa perspectiva que permitiria a subsequente e natural passagem para uma sociedade socialista. Este importante contributo teórico bastaria para fazer de Álvaro Cunhal um estadista que marca, sem quaisquer dúvidas a história política portuguesa do século XX.

Mas não foi apenas na sua obra escrita que Álvaro Cunhal deu ao PCP uma contribuição de inestimável valor. Fê-lo também nos contactos da vida diária, na sua intervenção nas actividades do Partido, no contacto pessoal. Não nos deixou apenas o legado da sua contribuição teórica. Deixou-nos toda uma herança vivida em luta.

Álvaro – como lhe costumávamos chamar – tinha a cultura de uma grande respiração da vida. Era um viajante da História e podia discorrer-se com ele o passado, o moderno e o futuro. No seu percurso teve o mesmo à vontade natural em lidar com as classes sociais em épocas, espaços e circunstâncias diferentes. Isso deu-lhe um vasto campo de observação tanto mais amplo quanto era um observador atento e apaixonado da realidade. E manifestou-o como uma constante da sua visão do mundo.

Quem apenas ler os seus textos de análise teórica, rigorosos e densos, desconhece a vertente fortemente lúdica da sua observação da realidade e a ductilidade que só pode ser conseguida pela profundidade do conhecimento associada à largueza do olhar constantemente observador. Talvez essa inteligência associativa fosse a causa da sua capacidade de síntese nas pinceladas rasgadas que usava para caracterizar grandes linhas de ideias confluentes ou conflituantes, que marcam e separam caminhos.

A sua escolha esteve sempre do lado daqueles que considerava serem o motor de arranque da História: os que trabalham e criam a riqueza do mundo.

A sua coerência, a sua determinação e firmeza marcaram de forma indelével aqueles que com ele privaram. Pela sua vida, pela sua intervenção pública, pela sua personalidade multifacetada, o camarada Álvaro Cunhal ficará na História do nosso país como testemunha de acusação e de defesa das grandes causas da nossa época. É o tempo que nos vai dando o valor do seu testemunho.

Que a sua herança fique em boas mãos, essa é uma obrigação de todos nós.

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